Fala, Juno!

Sobre startups, fintechs e circuitos elétricos

A Marta e o Pedro, nossos startupeiros que entendem das burocracias do mercado financeiro, fizeram esse texto show de bola pra falar sobre circuitos elétricos, startups, pessoas e vespeiro. Não necessariamente nessa ordem.

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Tempo de leitura: 4 minutos

(Ou sobre como aquela aula de física do Ensino Médio serviu pra alguma coisa no fim do dia)

Por Marta Savi, advogada na Juno, e Pedro Ceolin, analista de Risco e Compliance na Juno.

Imagine uma empresa como se ela fosse um circuito elétrico.

Mas não uma empresa qualquer, nem qualquer circuito elétrico. Então deixa a gente te ajudar nesse cenário.

Todos os equipamentos elétricos e eletrônicos possuem um circuito, seja ele série ou paralelo. Lembra dessa aula? Tudo bem não lembrar (a gente também achou que não ia servir pra nada, fica tranquilo).

Vamos te explicar melhor.

Circuito em série é aquele com duas ou mais cargas que estão sendo alimentadas em série uma com a outra, ligadas em sequência. Há apenas um único caminho para a passagem de corrente elétrica.

Já o circuito em paralelo também é composto por duas ou mais cargas, porém, ao contrário do primeiro, todas essas cargas possuem o mesmo ponto em comum. Isso quer dizer que há um ponto de derivação para todas elas, fazendo com que o fluxo da corrente elétrica separe proporcionalmente para cada carga, de acordo com o valor de sua resistência.

Tá. Não ajudou, né? Aí vai uma foto:

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Circuito em série e paralelo.

Pois bem. Com esses desenhos em mente (vamos ser sinceros: eles valeram por toda a explicação), vamos te contar um pouco sobre como as coisas acontecem aqui na Juno.

A Juno é uma empresa de intermediação de pagamentos online. Em resumo, a gente emite boletos e cobranças via cartão de crédito e fornece aos nossos clientes uma plataforma digital para gestão dos valores recebidos.

Funcionamos como um corredor entre o vendedor ou prestador de serviços e seu cliente final. A gente mexe num vespeiro. O sistema financeiro brasileiro é superregulado, cheio de regras, normas e estruturas fixas, além de ser superfechado e muito tradicional. E o Banco Central do Brasil é a instituição responsável por fazer a banda tocar por aqui.

Pegou?

Beleza. Mas mesmo dentro desse escopo — pode falar escopo aqui? — trabalhamos num ambiente muito dinâmico e cheio de mudanças. É assim com as startups, é assim com as fintechs, é assim com empresas que lidam com a internet de modo geral. E a Juno, além de caber em intermediadora de pagamentos, também cabe em todas essas definições.

E quando a gente fala de ambiente dinâmico e cheio de mudanças, precisa também falar que esse ambiente envolve pessoas.

Se você perguntar pra qualquer um aqui dentro da Juno o que essa pessoa faz, você não vai ter uma resposta de uma linha. E se você perguntar se ela achava que iria trabalhar com o que faz hoje quando entrou pro time, você provavelmente vai receber um “não”.

Essa é uma das características dos chamados startupeiros. Essa, a mesa de sinuca, a informalidade do ambiente. São marcas desse modelo de companhia que pensa fora da caixa. O que deve mover quem inventa as startups é um pensamento só: “será que é o sapato, a camisa formal e o cubículo que moldam e determinam a forma de trabalhar do sujeito?”, seguido de um “provavelmente, não”.

E falar sobre pensar fora da caixa também estabelece, mesmo que a gente não queira, um padrão do que é “pensar dentro da caixa”. Você provavelmente imaginou uma pessoa de roupas formais dentro de um cubículo respondendo muitos e-mails enquanto pula de reunião em reunião, não é?

E quando se lista uma série de características e adjetivos startuperos, também precisamos pensar da onde vem esses adjetivos, e porque tantas empresas nesse formato compartilham desses aspectos, deixando de lado aquele “pensar dentro da caixa” enquanto organizam competições de ping pong na firma.

Mas será que esse modo “dentro da caixa” de vestir, falar e trabalhar não vem de uma coisa maior? E se vem, do quê? Será que dá pra ver de longe? Será que dá pra apertar? Será um pássaro? Um avião? E por que diabos vocês falaram de circuitos?

Calma. Vai fazer sentido.

Vamos voltar um pouco lá pra uma das definições da Juno: fintech.

Um dos aspectos mais relevantes sobre as Fintechs (pelo menos para revistas do mercado financeiro), é seu alto crescimento. Nos demonstrativos de resultados, os olhos chegam a brilhar. Os editores desses periódicos parecem estar observando o nascimento de pequenas Chinas.

Aconteceu com a Juno.

Um belo e ensolarado dia, em função desse crescimento exponencial (estamos cheios de referências pro pessoal de exatas!), a gente topou com normas, circulares e regulamentações. Sim, Juno. Vocês agora precisam falar comigo, nos disse o Banco Central. Grandes poderes, grandes responsabilidades. Sábias últimas palavras, tio Ben.

Nosso primeiro sentimento foi de medo, não que a gente não esperasse. Quando você está fazendo algo bom de uma forma inovadora e barulhenta, que chama atenção, e caem no seu colo regras impostas pra players que estão há muito mais tempo na fila do que você, bate aquele medo (tá, talvez pânico.) da gente começar a fazer as coisas igual todo mundo, sabe como?

Mas a gente ouviu nossas mães. A gente não é todo mundo. Nesse impasse entre ser diferente ou ser o mesmo, surgiram também novos projetos paralelos. Um desses projetos foi o de nos adequarmos ao ambiente regulatório rígido e formal –afinal, é preciso — sem perdermos a nossa essência.

E qual é a nossa essência? Do que somos diferentes das empresas tradicionais? Por que o pessoal vem trabalhar de chinelo? Por que escrevemos textos com um vocabulário mais despojado, mandamos gifs? Será que nosso diferencial vem dos cachorros que nos fazem companhia no trabalho?

Se os circuitos em série, que possuem um único caminho para a passagem da corrente elétrica, são montados dessa forma por questões de segurança ou por regras, seria esse também o nosso fatídico destino de previsibilidade?

Lembra dos circuitos?

A gente deixou de dizer, convenientemente, que essa explicação binária sobre os circuitos não compreende a realidade. A explicação de em série ou em paralelo só servia pra’quela aula do ensino médio. Na vida real, também existem os circuitos mistos.

E um circuito misto é aquele que dispõe de componentes eletrônicos conectados tanto em paralelo quanto em em série, associados a uma só fonte de tensão.

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Circuito misto.

Então, era disso que a gente tava falando: na vida real de startupeiros dá pra ser circuito em série e ser circuito paralelo, e também dá pra ser as duas coisas ao mesmo tempo. Na vida real, a aula de física do Ensino Médio é só o ponto de partida pra gente descobrir que é como circuito misto que a gente funciona melhor.

Leia também: O que é uma startup?